ANÁLISE EXPLORATÓRIA DA ASSOCIAÇÃO DE FATORES DE RISCOCARDIOVASCULARESEMDOENTESCOMESEMDOENÇA CEREBROVASCULAR

Autores

  • André Gomes Roque Mestre em Medicina, Licenciado em Fisioterapia. Médico Interno de Medicina Geral e Familiar na USF Santa Joana, ACeS Baixo Vouga; Docente convidado na Escola Superior de Saúde de Aveiro e na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra.
  • Lara Cabrita Mestre em Medicina, Licenciada em Fisioterapia. Médica Interna de Medicina Geral e Familiar na USF Fénix de Aveiro, ACeS Baixo Vouga.
  • Ana João Taveira Mestre em Medicina. Médica Especialista em Medicina Geral e Familiar na UCSP Mira, ACeS Baixo Mondego.
  • Pedro Damião Licenciado em Medicina, Estudos pós-graduados em Estatística, Matemática e Computação; Bioestatística e Biometria. Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar com grau de consultor na USF Fénix de Aveiro, ACeS Baixo Vouga
  • Eliana Bonifácio Mestre em Medicina. Médica Especialista em Medicina Geral e Familiar na USF Santa Joana, ACeS Baixo Vouga

DOI:

https://doi.org/10.58043/rphrc.48

Resumo

Introdução: As doenças cerebrovasculares (DCerV) são a primeira causa de mortalidade em mulheres e a segunda causa de morte em homens nos países industrializados. O principal fator de risco cardiovascular (FRCV) é a hipertensão arterial (HTA). Esta informação advém de grandes cohorts internacionais, mas a realidade local poderá ser diferente e não se encontra caracterizada. Procurámos assim clarificar a associação de FRCV com a codificação de DCerV numa unidade de saúde familiar (USF), para afinar a perceção de risco pelos profissionais e a sua transmissão aos utentes.

Métodos: Estudo observacional retrospetivo com análise exploratória de dados (EDA), numa amostra de conveniência anonimizada de utentes de uma USF, com 18 ou mais anos e pelo menos uma medição da pressão arterial sistólica (PAS) registada até 31/12/2018. Considerámos DCerV a codificação com K89 - isquémia cerebral transitória, K90 - trombose/acidente vascular cerebral (AVC) e K91 - doença vascular cerebral, no MIMUF até essa data. Caracterizámos os FRCV registados (idade, PAS, pressão arterial diastólica (PAD), colesterol total (CT), colesterol de lipoproteínas de alta densidade (HDL), triglicerídeos, obesidade, tabagismo, dislipidemia e diabetes mellitus (DM)) através de histogramas para as variáveis contínuas e boxplots das mesmas, particionadas por combinações de FRCV em diagramas de cardinalidade, produzidos em software R* 3.4.2. Para a análise multivariada da associação dos casos com DCerV tendo em conta a combinação de FRCV, criámos um modelo de regressão logística com os FRCV major.

Resultados: Foram incluídos 8.769 indivíduos, com média de 53,43 anos, maioritariamente do género feminino (58,5%), dos quais 278 com DCerV. Na amostra havia 41,8% de indivíduos com dislipidemia, 35,0% hipertensos, 21,5% com obesidade, 18,4% com tabagismo e 12,6% de diabéticos. O FRCV mais frequente foi a combinação de HTA + dislipidemia, seguido de tabagismo e de dislipidemia isolados. Obtivemos uma prevalência de DCerV de 3,2%, incluindo 2,0% com acidente vascular cerebral (AVC). A prevalência de HTA, DM e dislipidemia foi superior na presença de DCerV, contudo a prevalência de obesidade e tabagismo foi inferior. A PAS e PAD era superior no género masculino e naqueles com DCerV, que se encontravam na sua maioria com PAS ≥ 140mmHg (54,0%). A codificação de DCerV foi mais tardia nas mulheres (pico 80-90 anos) que nos homens (pico 70-80 anos). O modelo de regressão logística não apresentou diferenças significativas entre os resultados previstos e as observações da amostra (teste Hosmer-Lemeshow, X2=6.5781; df=8; p=0.5828) e incluiu as variáveis preditoras: idade, género feminino, tabagismo, DM, HTA, dislipidemia e obesidade. De acordo com o modelo a probabilidade de um dado caso apresentar codificação de DCerV é de: 1/[1+exp(-z)], em que z = -7.00757 - 0.08618(género feminino) + 0.04785(idade) + 0.22364(tabagismo) - 0.35407(DM) + 0.88350(HTA) + 0.38920(dislipidemia) - 0.23875(obesidade) e exp(x) é a função exponencial natural de x. Com base nesse modelo a razão de chances não incluiu a unidade para as variáveis: idade, dislipidemia e HTA, pelo que apenas com estas se pode afirmar o sentido da associação.

Discussão: Os resultados estão em linha com a prevalência bruta de AVC estimada em Portugal. Também a distribuição dos FRCV é congruente com o descrito internacionalmente. É relevante que 54% dos utentes codificados com DCerV apresentem PAS ≥ 140 mmHg, podendo significar um controlo subótimo deste FRCV após evento. O modelo de regressão é válido para a nossa amostra, e mostrou que a idade (p<0,00001), a HTA (p<0,001) e a dislipidemia (p<0,05) estão associados ao registo de DCerV numa USF. As conclusões são limitadas à presente amostra não podendo ser generalizadas por ser um estudo exploratório, unicêntrico, observacional e sujeito à existência de codificação dos problemas pelos clínicos.

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Publicado

2023-02-13

Como Citar

1.
Gomes Roque A, Cabrita L, Taveira AJ, Damião P, Bonifácio E. ANÁLISE EXPLORATÓRIA DA ASSOCIAÇÃO DE FATORES DE RISCOCARDIOVASCULARESEMDOENTESCOMESEMDOENÇA CEREBROVASCULAR. RH [Internet]. 13 de Fevereiro de 2023 [citado 2 de Março de 2024];(90):30-9. Disponível em: https://revistahipertensao.pt/index.php/rh/article/view/48

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