A IMPORTÂNCIA DA SEMIOLOGIA MÉDICA – UM CASO DE SÍNDROME DE ROUBO DA SUBCLÁVIA

Autores

  • João R. Nunes Pires Médico Interno de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar, USF São Martinho de Alcabideche, ACeS Cascais https://orcid.org/0000-0002-4291-3022
  • Raquel Baptista Leite Médico Interno de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar, USF São Martinho de Alcabideche, ACeS Cascais
  • Catarina Moita Médico Interno de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar, USF São Martinho de Alcabideche, ACeS Cascais
  • Ana Sofia R. Silva Médico Interno de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar, USF São Martinho de Alcabideche, ACeS Cascais
  • Violeta Florova Assistente em Medicina Geral e Familiar, USF São Martinho de Alcabideche, ACeS Cascais

DOI:

https://doi.org/10.58043/rphrc.71

Palavras-chave:

Hipertensão arterial, Síndrome de Roubo da Subclávia

Resumo

A síndrome de roubo da subclávia resulta da reversão do fluxo na artéria vertebral em consequência de uma estenose/oclusão hemodinamicamente significativa do segmento pré-vertebral da artéria subclávia. É relativamente raro (prevalência europeia estimada de 1.3%), em grande parte devido ao subdiagnóstico. Além das manifestações sensitivo-motoras do membro afetado, as principais complicações incluem insuficiência vertebro-basilar e isquemia cerebral transitória.
Apresenta-se o caso de uma mulher de 61 anos, aparentemente assintomática, que vem a consulta de vigilância. Por se tratar do primeiro contacto entre médico/doente, é realizada medição da tensão arterial (TA) em ambos os membros superiores (MS), verificando-se diferencial entre o esquerdo (MSE) e o direito (MSD) superior a 15 mmHg (TA MSE 147/94 mmHg e TA MSD 120/83 mmHg), mantido após medições seriadas. Foi também objetivada a ausência de pulsos palpáveis no MSD, palpando-se pulsos radial e umeral amplos, rítmicos e regulares no MSE. Não apresentava outros achados no exame objetivo, nomeadamente ao nível do índice tornozelo-braço ou dos pulsos dos membros inferiores. Referiu ter suspendido a terapêutica anti-hipertensora há cerca de ano e meio por aparente má tolerância, mas revelando aparente controlo tensional sem qualquer medicação durantes as medições tensionais no domicílio, exclusivamente no MSD.
Foi reintroduzida terapêutica anti-hipertensora em monoterapia na dose mínima necessária e solicitada ecografia com estudo doppler arterial dos MS e carotídeo. Posteriormente, objetivou-se uma normalização tensional no MSE com boa tolerabilidade ao anti- hipertensor instituído, embora mantido o diferencial entre membros. Quando novamente questionada sobre sintomatologia prévia, a doente recorda parestesias matinais esporádicas, mas recorrentes e localizadas ao MSD, que associava a compressão durante o sono. Dos exames realizados, foi detetada a “inversão do fluxo na artéria vertebral direita e franca redução do fluxo na artéria subclávia direita, sugestivo de estenose do tronco arterial braquiocefálico com síndrome do roubo completo da subclávia (...) e presença de insuficiência arterial com curvas velocidade bifásicas em todos os eixos arteriais do MSD”.
Foi referenciada a consulta de Cirurgia Vascular, onde foi iniciada antiagregação plaquetária e solicitada angio-TC que confirmou o diagnóstico. Por agravamento das parestesias e surgimento de paresia do mesmo membro, foi proposta para cateterismo, que decorreu sem intercorrências. Após a intervenção, a doente deixou de apresentar sintomas ou diferencial tensional entre MS.
Este caso reforça a importância de uma anamnese completa, sustentada por uma comunicação efetiva, e de um exame objetivo dirigido mas meticuloso, pilares da semiologia médica, na deteção precoce de entidades nosológicas com potencial impacto na qualidade de vida dos doentes, evitando uma investigação subsequente exaustiva e desnecessária. A escuta ativa e reflexiva do doente sobre a sua condição, queixa ou preocupação conduz a verdadeiras “pistas” para a formulação de hipóteses diagnósticas, espetro esse que se estreita quando as melhores práticas de exame objetivo médico são respeitadas.

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Referências

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Publicado

2023-12-10

Como Citar

1.
R. Nunes Pires J, Baptista Leite R, Moita C, R. Silva AS, Florova V. A IMPORTÂNCIA DA SEMIOLOGIA MÉDICA – UM CASO DE SÍNDROME DE ROUBO DA SUBCLÁVIA. RH [Internet]. 10 de Dezembro de 2023 [citado 22 de Julho de 2024];(98):16-9. Disponível em: https://revistahipertensao.pt/index.php/rh/article/view/71

Edição

Secção

Caso Clínico