ASSOCIAÇÃO ENTRE DOENÇA RENAL CRÓNICA E EVENTOS CARDIOVASCULARES MAJOR: ANÁLISE DA COORTE VALE DO VOUGA
DOI:
https://doi.org/10.58043/rphrc.181Palavras-chave:
Doença Renal Crónica, Hipertensão, Doenças Cardiovasculares, Albuminúria, Taxa de Filtração GlomerularResumo
Introdução: A redução da taxa de filtração glomerular (TFG) e o aumento da albuminúria são marcadores estabelecidos de risco cardiovascular elevado e prognóstico desfavorável. Contudo, o impacto da doença renal crónica (DRC) como fator independente para eventos cardiovasculares major permanece frequentemente subestimado. As diretrizes europeias recentes recomendam a utilização de modelos de risco, como o SCORE2 e SCORE2-OP, para uma avaliação mais precisa do risco cardiovascular em doentes hipertensos, especialmente aqueles com patologia renal.
Objetivo: Este estudo teve como objetivo caracterizar utentes hipertensos com eventos cardiovasculares major e avaliar a associação com DRC, considerando comorbilidades, parâmetros laboratoriais e terapêutica pré-evento.
Métodos: Realizou-se um estudo observacional retrospetivo, incluindo hipertensos com eventos cardiovasculares major seguidos numa Unidade de Saúde Familiar entre 2014-2024. Os critérios de inclusão baseiam-se nos códigos ICPC-2 K74, K75, K76, K89, K90, excluíndo não hipertensos, grávidas e menores de 18 anos. Os dados foram recolhidos da plataforma MIM@UF® e SClínico® e analisados com IBM SPSS®.
Resultados: Foram incluídos 160 utentes (69,4% homens; idade média 67,1 ± 10,6 anos). Os eventos mais frequentes foram acidente vascular cerebral (33,1%) e doença cardíaca isquémica com angina (31,3%). As comorbilidades mais prevalentes foram dislipidemia (89,4%), diabetes mellitus tipo 2 (45%), obesidade (33%) e DRC (13,1%). Em termos laboratoriais, observou-se creatinina de 0,94 mg/dL, microalbuminúria de 24,0 mg/g e LDL médio de 106,9 mg/dL. Cerca de 14,4% apresentaram TFG <60 mL/min/1,73m2. A terapêutica pré-evento incluiu inibidores da enzima conversora de angiotensina II em 51,2%, antagonistas dos recetores da angiotensina II em 23,7% e inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2) em apenas 1,9%.
Conclusão: Destacam-se a prevalência relevante de DRC e a baixa utilização de iSGLT2, apesar da elevada prevalência de diabetes, refletindo lacunas significativas na prática clínica. Considerando o benefício sólido dos iSGLT2 na proteção renal e cardiovascular comprovado por estudos recentes, a identificação precoce da DRC e a otimização da terapêutica constituem estratégias essenciais para reduzir a carga de eventos cardiovasculares major e melhorar os desfechos destes doentes.
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